Em novo livro, Lobão defende o rock dos anos 1980 e faz novos ataques à MPB
21/07/2017 - 16h41 em Música

Para cantor, gênero escapou do 'totalitarismo cultural' que domina o país
 

RIO — Lobão estreia na coleção dos guias politicamente incorretos da editora LeYa com um livro sobre os anos 1980 pelo viés do rock brasileiro. Ao longo de 496 páginas, ele disseca e recontextualiza a sua própria produção e a dos companheiros de geração em prosa caudalosa e apaixonada. Mas o que soa alto mesmo no volume é a saraivada de ataques do músico à MPB, especialmente direcionados aos medalhões Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Roberto Carlos. Algo que, por sinal, ele veio fazendo em cada livro que publicou antes: “50 anos a mil” (autobiografia, de 2010), “Manifesto do Nada na Terra do Nunca” (2013) e “Em busca do rigor e da misericórdia” (2015).

— Eu sou um cara insistente, estou aqui para derrubá-los — confirma o músico, que, sem qualquer receio de parecer repetitivo, começou a preparar um segundo guia politicamente incorreto, desta vez sobre Tropicália e MPB. — Assunto não vai faltar, tenho mil possibilidades ainda não levantadas. A MPB engendrou um discurso que fez com que os seus artistas se tornassem coronéis, obrigando os mais novos a passar por um beija-mão. Eles são contra a gente, as pessoas têm que entender isso! Temos que sair desse circulo vicioso.

Baterista original da Blitz (que ele abandonou logo no início do sucesso, em 1982), além de cantor e compositor de hits à frente do grupo Lobão e os Ronaldos e em carreira solo, Lobão diz que sempre achou “mal-contada” a história do rock brasileiro dos anos 1980 (“Tive participação nos momentos mais emblemáticos daquele período”, justifica). Logo que recebeu o convite para escrever o “Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo rock” (que teve noite de autógrafos em São Paulo no Teatro Unibes Cultural, e no Rio, na Livraria da Travessa do Leblon), sua intenção era destroçar bem mais do que acabaria destroçando. Ele fez questão de não ler nenhum dos livros publicados sobre o tema — que, em sua opinião, são escritos por jornalistas “subservientes aos artistas estabelecidos” — e se decidiu por somente ouvir os LPs que o rock (e que a MPB) lançaram ao longo daquele década.

— Eu ouvia as músicas no rádio, jamais tinha parado para escutar cada um daqueles discos até então. Foi uma experiência reveladora. Achei coisas interessantíssimas dos Engenheiros do Hawaii, dos Inocentes e do Cólera que me deixaram muito emocionados — conta ele, que se desmancha em elogios no livro a algumas poucas canções gravadas nos anos 1980 por oponentes e desafetos como Caetano Veloso e Herbert Vianna (à frente dos Paralamas do Sucesso). — Chorei quando ouvi “Quase um segundo” (dos Paralamas). Isso é que dá credibilidade ao livro, não há contaminação emocional no que eu estou ouvindo. Por outro lado, quando você põe um “A volta do malandro” ao lado de “Geração Coca Cola”, o Chico fica muito chinfrim.

Para Lobão, hoje aos 59 anos de idade, a grande façanha do rock nacional nos anos 1980 “foi conseguir escapar, mesmo que por um breve período”, do totalismo cultural que assola o país “desde a Semana de 22”.

— Artistas como Chico, Simone e Bethânia dominavam os orçamentos das gravadoras, apesar de vender poucos discos. E nós tínhamos que fazer o trabalho sujo, com uma produção tosca e os produtores querendo nos transformar em uma Jovem Guarda — alega ele, que agora, na esteira do livro, parte para um projeto de revisão, “com produção fodona”, daquele repertório gravado em condições adversas pelos então jovens artistas. — Peguei a “Virgem”, da Marina e estou fazendo com a minha banda uma versão mais Soundgarden. Minha ideia é, a cada quinzena, lançar uma gravação. Andei tirando “Certas coisas”, do Lulu Santos, “Lanterna dos afogados” (Paralamas) e algumas dos Engenheiros. Vou fazer um mergulho ainda mais profundo nessa época.

O cantor e compositor afirma não ver qualquer crise do rock em 2017 (“Ele continua sendo o oráculo do comportamento e há bandas como Cage The Elephant, Elbow e Radiohead fazendo música de primeiríssima”, crê), e nem mesmo em se tratando de um Brasil que hoje se divide entre sertanejo, funk e arrocha.

— Ainda existe uma cultura poderosíssima de rock no país, mesmo com ele sendo visto como uma coisa de coxinha e de branco. Temos o Far From Alaska, o Cachorro Grande continua insistindo... E eu estou fazendo os meus melhores trabalhos agora (seu mais recente álbum é “O rigor e a misericórdia”, do ano passado). Como Nelson Sargento disse sobre o samba, o rock agoniza mas não morre — defende.

 

Indefensável mesmo, para Lobão, é o rock brasileiro feito nos anos 1990, logo após a “década de esplendor criativo” no qual brilhou (um dos capítulos do novo livro, aliás, é intitulado “1990/1991 — Esse é o fim, meus amigos”).

— Os grupos dos 90 foram sendo domesticados uma vez que os velhos astros se deram conta de que não corriam mais o perigo de perder o poder. Esses artistas vinham com o sincretismo tão cobrado pela MPB e acabaram se tornando uma espécie de corte do Tropicalismo. Chico Science e a Nação Zumbi, por exemplo, saíram a reboque de “Maracatu atômico” (canção de Gilberto Gil e Jorge Mautner) — identifica o lobo. — Essa geração podia até ter uma sonoridade melhor, mas a articulação intelectual era bem menor. O que poderiam dizer o Chorão (do Charlie Brown Jr.) e o D2 (do Planet Hemp)?

“Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock”

Autor: Lobão. Editora: LeYa. Páginas: 496. Preço: R$ 59,90

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